1
Catequese do Medo
Catequeses do Medo
Letra e Música: Marcelo Yuka
Catequese do medo
Num buraco negro
No fim do terceiro mundo
Um sorriso assustado
Uma mãe desesperada
Um pai mal pago, operário e mudo
Reuniões oficiais escurecendo outras salas
Onde a tortura faz filho
Na pele de um jovem afro-brasileiro
Na pele de um jovem fudido e sem dinheiro
Por isso
Podem falar o que for
Que eu sei que não sou culpado
Podem falar o que for
Que eu sei que não sou, sei que não sou
A fome é um esperma
Por entre as pernas da violência
E o egoísmo que excitou
As diferenças em que merece
Um aborto imediato
Um apartheid econômico
Contamina, machuca
E não nos deixa gritar
Quando o carro preto passa
Por isso
Podem falar o que for
Que eu sei que não sou culpado
Podem falar o que for
Que eu sei que não sou
Sei que não sou
2
Não Vão Me Matar
Não Vão Me Matar
Letra e Música: Falcão
Eu não quero mais saber de sofrer não
Não quero não
Me contam histórias diferentes
Achando que eu vou acreditar
Enganam o povo com promessas
Tentando induzi-los a acreditar
Que a consciência do ser humano
De repente pode até falhar
Quem bate esquece quem apanha
E quem apanha quer se vingar
Criticam esta raça tão bonita
Que é capaz de aguentar
Torturas, humilhações à parte
Podem pisar, mas não vão me matar
Cantando a verdade, falando da vida
Contando história, falando de amor
Brigando com a vida, prá ser mais feliz
Não vão me matar
Eu não quero mais saber de sofrer não
Não quero não
3
Todo Camburão tem um pouco de Navio Negreiro
Todo Camburão Tem Um Pouco De Navio Negreiro
Letra: Marcelo Yuka / Música: O Rappa
Tudo começou quando a gente conversava
Naquela esquina alí
De frente àquela praça
Veio os homens
E nos pararam
Documento por favor
Então a gente apresentou
Mas eles não paravam
O que que tá pegando?
Qual é negão? Qual é negão?
É mole de ver
Que em qualquer dura
O tempo passa mais lento pro negão
Quem segurava com força a chibata
Agora usa farda
Engatilha a macaca
Escolhe sempre o primeiro
Negro pra passar na revista
Pra passar na revista
Todo camburão tem um pouco de navio negreiro (África)
É mole de ver
Que para o negro
Mesmo a aids possui hierarquia
Na África a doença corre solta
E a imprensa mundial
Dispensa poucas linhas
Comparado, comparado
Ao que faz com qualquer
Figurinha do cinema
Comparado, comparado
Ao que faz com qualquer
Figurinha do cinema
Ou das colunas sociais
Todo camburão tem um pouco de navio negreiro (África)
É mole de ver
Que todo camburão tem um pouco de navio negreiro (África)
Todo camburão tem um pouco de navio negreiro (África)
4
Take It Easy My Brother Charles
Take It Easy My Brother Charlie
Jorge Ben
Take it easy my brother Charlie
Take it easy meu irmão de cor
Pois a rosa é uma flor a rosa é uma dor a rosa é um nome de mulher
Rosa é a flor da simpatia flor escolhida no dia
Do primeiro encontro do nosso dia com a vida querida
Com a vida mais garrida
Take it easy Charlie
Take it easy my brother Charlie
Take it easy meu irmão de cor
Depois que o primeiro homem maravilhosamente pisou na lua
Eu me senti com direitos, com princípios e dignidade
De me libertar
Por isso sem preconceito eu canto
Eu canto a fantasia eu canto o amor
Eu canto a alegria eu canto a fé
Eu canto a paz eu canto a sugestão eu canto na madrugada
Take it easy my brother Charlie
Pois eu canto até pra minha amada esperada, desejada, adorada
Take it easy my brother Charlie
Take it easy meu irmão de cor
Take it easy my boy
Take it easy my friend
Oh Charlie
Olha só Charlie, olha só como o sol é belo Charlie
Take it easy my boy Charlie
Olha Charlie, olha só como é verde o mar Charlie
Go Charlie go, go Charlie go
Take it easy my brother Charlie
Take it easy meu irmão de cor
Take it easy my brother
My lover boy
Go Charlie go, go Charlie go
Take it easy my brother Charlie
Take it easy meu irmão de cor
5
Brixton, Bronx ou Baixada
Brixton, Bronx ou Baixada
Letra: Marcela Yuka e Nelson Meirelles / Música: O Rappa
O que as paredes pichadas têm pra me dizer
O que os muros sociais têm pra me contar
Porque aprendemos tão cedo a rezar
Porque tantas seitas têm aqui seu lugar
É só regar os lírios do gueto
Que o Beethoven Negro vêm pra se mostrar
Mas o leite suado é tão ingrato
Que as gangues vão ganhando cada dia mais espaço
Tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, todo igual
Brixton, Bronx ou Baixada
A poesia não se perde ela apenas se converte
Pelas mãos no tambor
Que desabafam histórias ritmadas como único
Socorro promissor
Cada qual com seu James Brown
Salve o samba, hip-hop, reggae ou carnaval
Cada qual com seu Jorge Bem
Salve o jazz, baião, e os toques da macumba
Também
Da macumba também...
Tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, todo igual
Brixton, Bronx ou Baixada
6
R.A.M.
R.A.M.
Letra: Marcelo Yuka / Música: O Rappa
Nação não é bandeira
Nação é união
Família não é sangue
Família é sintonia
Novos satélites nos aproximam
Mais e mais
Então a gente se vê nos telejornais
Agora mesmo pedras estão voando
Na direção certa
Pedras na direção certa
Confie nisso véio
Ritmos, ações e manifestos
Atirados em passeatas
Ou em casos solitários
Como batuques diferentes
Numa mesma pulsação
Que não vão mudar o mundo
Mas fazem diferença
Fazem nossa diferença
Ao fascismo que cresce
Com a crise
Fazem nossa diferença
Na maneira de encarar
Cidadania, ruas e microfones
Confie nisso véio
Ritmos, ações e manifestos
7
Skunk Jammin
Skunk Jammin
O Rappa
Betinho, Gandhi, Charlie Chaplin
Albert Sabin, Bob Marley, Dona Zica
Grande Otelo, Cartola, Che Guevara
Mãe Menininha, Dalai Lama e Rei Dadá
Pou! Pou!
Betinho, Gandhi, Charlie Chaplin
Albert Sabin, Bob Marley, Dona Zica
Grande Otelo, Cartola Che Guevara
Mãe Menininha, Dalai Lama e Rei Dadá
Tem razão quem fala, fala
Com a voz do coração
8
Coincidências e Paixões
Coincidências e Paixões
Letra: Marcelo Yuka / Música: Marcelo Yuka e Falcão
Tem razão quem tem paixão
Tem razão quem fala
Com a voz do coração
Considerando
A gente como fruto
De algo maior
Maior do que tudo
A gente começa então
A entender que não, que não
Que não seria um absurdo
Coincidências e paixões
De repente acontecerem
Coincidências e paixões
Uh Uh! Uh Uh!
Tem razão quem tem paixão
Tem razão quem fala
Com a voz do coração
O destino
Pode mudar como o vento
Nada é tão planejado assim
Certo, inatingível
Como eles parecem dizer
Tem razão quem tem paixão
Tem razão quem fala
Com a voz do coração
Betinho Gandhi, Charlie Chaplin
Albert Sabin, Bob Marley, Dona Zica
Grande Otelo, Cartola, Che Guevara
Mãe Menininha, Dalai Lama e Rei Dadá
Tem razão quem fala, fala
Com a voz do coração
9
Fogo Cruzado
Fogo Cruzado
Letra: Marcelo Yuka / Letra e Música: Marcelo Yuka e Falcão
Fogo Cruzado
Eu tô no fogo cruzado
Vivendo em fogo cruzado
E eu me sinto encurralado de novo
No Gueto o medo abala quem ainda corre atrás
Do fascínio que traz o medo da escuridão
Que é a vida
No Gueto o medo ilude e seduz
Com o poder da cocaína
Quem comanda o sucesso
Das bocas de fumo da esquina
Mas a favela não é mãe de toda dúvida letal
Talvez seja de maneira mais direta e radical
O sol que assola esses jardins suspensos
Da má distribuição
Que arranham o céu
Mas não percebem o firmamento
Que se banham à beira-mar
Mas não se limpam por dentro
Que se orgulham do Cristo
De braços abertos, mas não abrem as mãos
Prá novos ventos
Tô no fogo cruzado
Vivendo em fogo cruzado
Entre a Bélgica e a Índia
Entre a Jamaica e o Japão
Entre o Congo e o Canadá
Onde a guerra nunca tá
Entre o norte e o sul
Entre o mínimo e o máximo
Denominador comum
Tô no fogo cruzado
Vivendo em fogo cruzado
10
À Noite
À Noite
Letra e Música: Marcelo Yuka
À noite, quando o calor se mistura com a luz da tv preto e branco
À noite, eu quieto dentro de casa ouvindo rajadas de bala
À noite, fatos ruins do jornal se unem ao meu cansaço
À noite, o mesmo corpo cansadão as vezes se perde de frente a saída
Mesmo assim eu paro e agradeço
Por eu não fazer do rancor minha vida
Por eu ainda acreditar no poder
Do amor revolucionário e salvador
Amor que me tirou a arma da mão
E me deu mais essa canção
11
Candidato Caô Caô
Candidato Caô Caô
Walter Meninão e Pedro Butina / Participação Especial: Bezerra da Silva
Ele subiu o morro sem gravata
Dizendo que gostava da raça, foi lá
Na tendinha, bebeu cachaça
E até bagulho fumou
Foi no meu barracão, e lá usou
Lata de goiabada como prato
Eu logo percebi é mais um candidato
As próximas eleições
Fez questão de beber água da chuva
Foi lá na macumba e pediu ajuda
Bateu a cabeça no gongá
"deu azar"
A entidade que estava incorporada disse:
Esse político é safado, cuidado na hora de votar!
Também disse
Meu irmão se liga no que eu vou lhe dizer
Hoje ele pede seu voto, amanhã manda a polícia lhe bater
Hoje ele pede seu voto, amanhã manda a policia lhe bater
Eu falei prá você, "viu"?
(Bezerra da Silva)
Esse político é safadão hein!
Nesse país que se divide
Em quem tem e quem não tem
Sempre o sacrifício cai no braço operário
Eu olho para um lado, eu olho para o outro
Vejo desemprego e vejo quem manda no jogo
E você vem, vem, pede mais de mim
Diz que tudo mudou e agora vai ter fim
Mas eu sei quem você é e ainda confio em mim
Esse jogo é muito sujo mas eu não desisto assim
Você me deve ... Ah ah ah ah!
Malandro é malandro e mané é mané
Você me deve ....
Você me deve seu banana prata
12
Mitologia Gerimum
Mitologia Gerimum
Música: Marcelo Yuka e Marcelo Lobato / Letra: Marcelo Yuka
Vou, vou, vou voltar
Pra casa de novo
Eu tive que vir só
Não pude trazer você comigo
Às vezes eu me sinto
Um exilado político
Por ser um gabirú
Não tão lesado assim
Gabirú, gabirú, gabiru, eh!
Vou, vou, vou voltar
Pra casa de novo
Troquei poeira por fuligem
Fiz um pacto em São Cristóvão
O couro da zabumba
Guarda um pedaço
Do dia em que o suor virar alegria
E os olhos tocarem na mãe
Brincando de aliviar
Um pouco do tempo que se foi
A um passo do precipício
A verdade é tão dura
Quanto o azulão contou
E se eu pensar no que
Valeu a pena
Vale o meu corpo vira-lata
Mais forte do que muito homem de pedigree
Vale um copo de cachaça
Pago de maneira decente
Vale a fé que freqüenta
A mitologia gerimum
De Padre Cícero a Frei Damião
Porque nem a segunda casa
É capaz de sarar
As lembranças do chão
Que me fez
Do chão seco e ingrato
Mas o chão que me fez
Gabirú, gabirú, gabirú eh!
Vou, vou, vou voltar
Pra casa de novo
13
Sujo
Sujo
Letra e Música: Marcelo Yuka
Se um raio cai no mesmo lugar duas vezes
Qualquer um de nós é capaz de parar
E pensar, e dizer, e falar
Por que eu? Por que eu?
Mas a cidade é muito grande
A cidade é gigante
A cidade é covarde
Com os que mais precisam dela
Os raios então são mais de dois
São muitos e sucessivos
E é por isso que ele está aí
Sujo, mas não tão sujo quanto a sociedade
Frio, mas não tão frio quanto a impiedade
Bêbado, mas não tão ébrio quanto a passividade
Sujo, frio e bêbado