O Rappa

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2008

7 Vezes


7 Vezes

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Lançamento: 2008
Gravadora: Warner Music

1 Meu Santo tá Cansado

Meu Santo Tá Cansado
Marcos Lobato, Marcelo Falcão, Xandão, Lauro Farias, Marcelo Lobato


Meu santo tá cansado
Não vou dizer que tenho saldo sobrando
Não tô devendo, mas a vida de homem é assim mesmo
Uma lona de freio aqui
Um motor fazendo um barulho ali
Não vou dizer que não menti

Meu santo tá cansado
Que sou todo direito
Sei a hora de ser covarde
Não pude ser tudo o que quis
Armei umas e outras
Tomei e dei volta
Como o drible sem objetivo
Que se perde além da linha lateral
Como drible sem objetivo

Mesmo sem carteira azul, sempre fui trabalhador
Às vezes a gente reza a cartilha e sai de brita
Às vezes a gente corre atrás do finado
Tem jogo (vai) que começa acabado

Já jurei
Com dedos cruzados, com dedos cruzados
Não tô aqui pra ser herói cuzão
Pra pagar de otário

Não tô aqui pra pagar pau pra fardinha azul
Aqui não tem cabeça baixa, também não tenho pressa
Não sou bebedor de água benta,
Se liga nessa, vai, ajoelha e reza
Meu sangue mais de uma vez subiu
Como o céu azul, meu céu azul de abril
Limpo, lavabo, brilha no céu mais bonito do espaço
Depois das águas de março

Meu santo tá cansado


2 Verdade de Feirante

Verdade de Feirante
Marcos Lobato, Marcelo Falcão, Xandão, Lauro Farias, Marcelo Lobato


Onde está?

Onde está minha parte da verdade
Meio suja, meio de achaque
Calafate de arame,de plastik
Casa pequena de pau, de rebite

Tá no grito, tá no sol que bate
Tá no rito, tá no sol que arde
Tá na rua em desespero
No choro, no tiro, no medo
Tá no dedo
Sempre apontado pra cara do X9

Tá deitado no chão, falando o que pode
No choro, no tiro, no medo
Falando o que pode
Tá no dedo apontado pra cara do X9

Onde está minha paz, e a verdade de pescador
Que toca viola e bebe cachaça, e cidra barata
Que debaixo do sol, sob a barraca
Feia freguesia, segue bonita a vida

Tá no grito, tá no sol que bate
Tá no rito, tá no sol que arde

Onde está? (tá no sol que arde)

Não tenho mão digital
Minha vida é sem graça, quase cópia
Produtor-camelô, de birosca
CD pirata no mundo igualzinho
Eu sou igual meus pais, CD pirata no mundo
Eu digo pra você, igualzinho
Minha vida é sem graça, quase cópia
Produtor-camelô, de birosca
CD, no mundo igualzinho, ei, ei, ei
CD pirata no mundo, tudo copiadinho


3 Hóstia

Hóstia
Marcos Lobato, Marcelo Falcão, Xandão, Lauro Farias, Marcelo Lobato


Os que sobravam encostados no balcão
Ali permaneciam nos trabalhos
Em meio ao ar parado
Não se ouve tiros, não há estardalhaço
Bicho-gente, bicho-grilo, quero que se dane

Olhos de injeção
Gatos humanos espreitam
Choram mimados meu rango

Não dividiria com qualquer animal
Meu prato de domingo a carne assada
É o principal
Mesmo um mendigo elegante da rua
Prato bonito ou feio minha caba na minha angústia

Meu escudo meu escudo é minha hóstia

Sentia proteção infantil
Mas permanecia assustado
Acuado em situação-hiena
Não sou carne barata
Varejo imaginado pedaço do atacado
Que pena


4 Meu Mundo é o Barro

Meu Mundo é o Barro
Marcos Lobato, Marcelo Falcão, Xandão, Lauro Farias, Marcelo Lobato


Moço, peço licença
Eu sou novo aqui
Não tenho trabalho, nem passe, eu sou novo aqui
Não tenho trabalho, nem classe, eu sou novo aqui

Eu tenho fé
Que um dia vai ouvir falar de um cara que era só um Zé
Não é noticiário de jornal, não é

Sou quase um cara
Não tenho cor, nem padrinho
Nasci no mundo, sou sozinho
Não tenho pressa, não tenho plano, não tenho dono

Tentei ser crente
Mas meu cristo é diferente
A sombra dele é sem cruz
No meio daquela luz

E eu voltei pro mundo aqui embaixo
Minha vida corre plana
Comecei errado, mas hoje eu tô ciente
Tô tentando se possível zerar do começo e repetir o play

Não me escoro em outro e nem cachaça
O que fiz tinha muita procedência
Eu me seguro em minha palavra
Em minha mão, em minha lavra


5 Farpa Cortante

Farpa Cortante
Marcos Lobato, Marcelo Falcão, Xandão, Lauro Farias, Marcelo Lobato


Não falta a marca da crise
O pé incomoda com o furo
Eu quase encosto no muro
No lado de cá, no lado de cá da vitória
No escuro, o teto é a laje
Acende e apaga a fogueira
No charco molhado de papelão
Coberto de fogo da brasa da fogueira

Convivência é áspera e amarga
O encosto além do prudente
No úmido e frágil caminho
Eu não tenho meu pai, eu sou sozinho
A vida emprestada no crime
Na sombra, longe do firmamento
Sem choro, no estrilo, sem choro não há tempo

A lata
Com farpa
Cortante


6 Em Busca do Porrão

Em Busca do Porrão
Marcos Lobato, Marcelo Falcão, Xandão, Lauro Farias, Marcelo Lobato


A busca do porrão não é de paz ou de abraço
De grade, de foice amarelada, não é de cagaço,
Não tem cor, não tem caô
Nem promessa, nem fita, nem missa
A busca do porrão não é missão
É uma sina

A busca do porrão não faz barulho
E não cobra dívida
A busca do porrão é intenção
Abraço consternado do pai
No filho pródigo perdoado e a presente felicidade
Que não começa e nem termina no espaço da paz
A fruição do som, do espaço vazio
O amor que não dá pitaco, que não dá pio

A busca do porrão não tem fim,
Não tem fim nem finalidade
Onde é necessária não tem, não tem cidade
A busca do porrão é a beleza,
Nunca perdida da cidade,
Pra além do silêncio do gozo da mulher
Difícil da cidade

Do patrão encaixe neura do torturado
Pralém do trem, do ônibus, do pé inchado
Do patrão encaixe-neura do torturado
Folheado, café-milho misturado
A busca do porrão vai além, além do macacão,
Abraço evangélico, evangélico no tição
Onde ninguém se perde nos dramáticos sete
Não tem traíra, não tem canivete
Sem traíra, sem canivete, sem traíra e canivete
O legal encontra o razoável,
Encaixe do neura, do torturado
O legal encontra o razoável,
Folheado, café-milho misturado

Além do papo mudo repetido
Além da compreensão,
Além do cabelo reco sem discriminação

O porrão não se respira,
Não se vende, não se aplica
O porrão é pura pica

A busca do porrão não tem fim e não faz barulho


7 7 Vezes

7 Vezes
Marcos Lobato, Marcelo Falcão, Xandão, Lauro Farias, Marcelo Lobato


Deixa o mundo avisado de teu nome
Sete vezes escrevi o seu nome,

Num mundo assim bem grande
Sete vezes escrevi seu nome.

Será que é,
Fato necessário diz que é
Insistir e repetir que é, todas as portas abrir.

Castigo, será que é obrigatório,
Estudar pra ter, vocabulário é obrigatório.

Será que é preciso pensar,
Engraçado, andar pra trás, ao contrário.
Colorir todo de amor,
Inventar um novo jeito de brincar.
Saber perder alguma coisa pra sobreviver


8 Monstro Invisível

Monsto Invisível
Marcelo Falcão, Xandão, Lauro Farias, Marcelo Lobato


Monstro invisível que comanda a horda
Arrasando tudo o que é de praxe
Eu tô laje acima, o cerol que traz a vida pra baixo
Brilhante idéia de uma cabeça nervosa
Grafitando um outro muro de raiva
Eles já sabiam, mas deixaram a sina guiar a sorte
Vejo a minha história com a sua comungar
Vejo a história, ela comungar

Ouço o lado e sujo, cria do descaso
Alimentando folhas em branco e preto
Outra epidemia desanima quem convive com medo
Botões e atalhos amplificam a distância
E a preguiça de estar lado a lado veste a armadura
Esse é o poder solitário


9 Maria

Maria
Marcos Lobato, Marcelo Falcão, Xandão, Lauro Farias, Marcelo Lobato


Noves fora a lógica
Se bateria é a nossa mágica
Eu escolho o juízo
Da alegria, do céu ao precipício

Minha canção é coisa séria
Um verdadeiro comício
Se o suingue é meu vício
Bato tambor, desde o início

Nosso som não tem cor
Nosso som não tem briga
Vejo as favelas todas elas unidas
Nosso som não tem cor
Nosso som não tem briga
E no meu sonho vejo as favelas unidas

Nosso som não é barulho
Nosso grito é aviso
Esquecido no entulho
Do folião sem juízo

Não vem do plugue a energia
Tô na moral, não tem idéia
Tô na moral, não tem flagrante
Tô na moral, não tem idéia
Tô na moral, é coisa séria
Tô em cima, tô embaixo
Trabalhador é coisa séria

Mas se um dia a festa terminar
Hei de louvar sempre a harmonia
Meu coração é pulsação, e meu guia
Nunca esquecida, minha mão de Maria


10 Súplica Cearense

Súplica Cearense
Gordurinha, Nelinho


Oh! Deus,
Perdoe esse pobre coitado,
Que de joelhos rezou um bocado,
Pedindo pra chuva cair,
Cair sem parar.

Oh! Deus,
Será que o senhor se zangou,
E é só por isso que o sol se arretirou,
Fazendo cair toda chuva que há.

Oh! Senhor,
Pedi pro sol se esconder um pouquinho,
Pedi pra chover,
Mas chover de mansinho,
Pra ver se nascia uma planta,
Uma planta no chão.

Oh! Meu Deus,
Se eu não rezei direito,
A culpa é do sujeito,
Desse pobre que nem sabe fazer a oração.

Meu Deus,
Perdoe encher meus olhos d'água,
E ter-lhe pedido cheio de mágoa,
Pro sol inclemente,
Se arretirar, retirar.

Desculpe, pedir a toda hora,
Pra chegar o inverno e agora,
O inferno queima o meu humilde Ceará.


11 Fininho da Vida

Fininho da Vida
Marcos Lobato, Marcelo Falcão, Xandão, Lauro Farias, Marcelo Lobato


Na parede onde se brinca
No chapisco encarpado
A parede que escora
O fininho da vida
Os verdadeiros heróis são os guerreiros da lida

Por entre as trincheiras-barracos
Passam num sopro da vida
Subindo e descendo em silêncio
No caminho apertado que tem
É o fininho da vida

Disciplina de trem, virtuose na vida tem
Maioria tem, maioria contida tem
Nordestina tem, na havaiana furiosa
Ruminando, engolindo sapo da vida

Olho baixo de quem tem emprego
Enquanto as letras se escrevem nos muros
Nas paredes: grafites, buracos, escrita do futuro
Em meio a tudo e muito, muito barulho
Nervosos, os peitos se aquecem
Respirando cortado, ansiando por furo

No buraco da vala
A laje é brinquedo
Em meio a pet e plásticos
Num domingo festivo, num domingo lindo


12 Documento

Documento
Marcos Lobato, Marcelo Falcão, Xandão, Lauro Farias, Marcelo Lobato


Não se aplica a regra
Não tem arrego
Não tem explicação
Passei do limite, do procedimento
Não tem explicação

Não procurei veio a mim
Não dói de noite a fumaça
O meu jornal, era só meu
O meu jornal era traça

Me alimentava de explosão
Queria ver fogo e paixão
Novos, renomados, juvenis
Queria ver a planta
E o projeto matriz

Carta fora do tempo
Nada de documento

Se era bom ou ruim
Tava aquém de mim


13 Respeito pela mais Bela

Respeito Pela Mais Bela
Vinicius Falcão, Marcelo Falcão, Xandão, Lauro Farias, Marcelo Lobato


Perguntar por que, eu não vou fazer
Perdemos você, mas nós temos que aceitar
Triste sem saber como me conter
Não posso te ver, mas ainda resta recordar

Foi, foi, eu digo que foi
Foi com um tempo, e nos abandonou
E uma enorme saudade aqui dentro
Aqui dentro do peito, do peito ficou

E é por isso que seu povo chora, chora
Sem saber se era, se era hora, a hora
Independente de onde esteja agora, agora
Traga a esperança, traga ela de volta

Não nos despedimos quando foi embora
Saiba que foi linda, linda a sua história
Ficou no coração e não na memória
Traga a esperança, traga ela de volta


14 Vários Holofotes

Vários Holofotes
Marcos Lobato, Marcelo Falcão, Xandão, Lauro Farias, Marcelo Lobato

Vários holofotes ligados aqui
A água do banho já aqueceu
Crianças correm para fora do campinho
Quem sabe aqui dentro o que acontece sou eu

É o estado de sítio diário e o muro é alto e contém a enchente
Um limite de arame farpado não acaba com a fome da gente
O chão que pinga o teto infiltrado é risco de alerta ligado
Sinto o medo no espaço apertado é o risco de alerta ligado

O coração síncope ritmada me protege dos meus sentimentos
O santo dorme, o santo Daime muita coisa de bom que acontece com a gente
O sol deixou de ser paisagem e passou a queimar de repente
Olho a TV e o rádio ligado, não suportam a imensa gritaria

Já não há mais
O barulho lá fora
Foi selada a falsa calmaria
Águas lavam o chão da evidência
Na área mansa ela é testemunha
No silêncio não existe flagrante
Foi lavado o asfalto com cunha